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b'Tudo que morre deixa um rastro: um som, um cheiro, uma mem\xf3ria suspensa no ar. A morte, afinal, \xe9 apenas a forma que o corpo encontra para continuar existindo fora de si. E \xe9 nessa fresta entre a carne e o infinito que O Doador se constr\xf3i n\xe3o como romance, mas como aut\xf3psia da alma.Helena, m\xe9dica e vi\xfava, n\xe3o busca a salva\xe7\xe3o de ningu\xe9m; busca o eco. Quando autoriza a doa\xe7\xe3o do corpo do marido, ela n\xe3o imagina que estar\xe1, aos poucos, recolhendo os peda\xe7os dele espalhados em outros corpos, como quem reconstitui um templo profanado. Cada viagem \xe9 um reencontro com uma parte perdida, cada pessoa receptora \xe9 um espelho invertido do que ela amou. E assim a ci\xeancia, fria e met\xf3dica, se transforma em rito, e o bisturi, em instrumento de revela\xe7\xe3o.Em O Doador, o corpo n\xe3o \xe9 mat\xe9ria: \xe9 mem\xf3ria. Evan do Carmo escreve como quem abre uma ferida com delicadeza, e a cada cap\xedtulo escava a fronteira entre o humano e o divino, at\xe9 que o amor, despojado de pudor e moral, apare\xe7a em sua forma mais verdadeira a de um instinto de continuidade. O livro n\xe3o fala de morte, fala de transfer\xeancia: do gesto invis\xedvel que faz o cora\xe7\xe3o de um tocar dentro do outro, da persist\xeancia de uma presen\xe7a que n\xe3o aceita desaparecer.O reencontro entre Helena e Davi \xe9 o ponto em que a literatura volta a ser risco. \xc9 ali que o autor se recusa a servir \xe0 moral e escolhe servir \xe0 verdade.'